Artigo publicado no Jornal de Jundiaí em 27/05/01
Jornalista: Gláucia Mazzei.


Pela falta de informação, o distúrbio é confundido com preguiça e burrice, provocando baixa auto-estima e evasão escolar

Gláucia Mazzei

   Agatha Christie, responsável pela venda de milhares de livros, só foi alfabetizada aos 12 anos. O escultor Alguste Rodin não conseguia se comunicar por escrito e sua família chegou a duvidar de sua capacidade mental. O ator Tom Cruise decora sua falas ouvindo fitas de textos gravados. Eles, assim como milhares de pessoas possuem um distúrbio de aprendizagem que, ao ser detectado precocemente, pode evitar problemas futuros.
    A dislexia é um distúrbio específico na área de leitura e escrita. Quando não tratado devidamente acaba afetando os disléxicos do mercado de trabalho e da escola.
    Segundo Maria Eugênia Braga Ianhez, 33 anos, assessora de comunicação Associação Brasileira de Dislexia (ABD), de 10 a 15% da população mundial é disléxica. “No Brasil, confirmamos essa estatística.”
    O número é considerado grande. A falta de informação também. Enquanto nos Estados Unidos há leis que protegem estas crianças e existem escolas e universidades especializadas para disléxicos, no Brasil pouca coisa é feita. Os professores não estão aptos para lidar com o problema. Não há recursos específicos na graduação e nas faculdades de psicologia, Medicina, Fonoaudiologia e Pedagogia o assunto é pouco divulgado. “É tratado muito superficialmente”, fala Eugênia.
    Maria Teresa Pedro, psicopedagoga do CRESCER – Centro de Orientação e Reeducação Pedagógica, em Jundiaí, diz que os professores não têm muita noção do que é dislexia. “Muitos percebem que a criança tem problemas, mas não tem formação em informações sobre dislexia.”
    A profissional trabalha nesta área há 26 anos e diz que há um grande número de disléxicos na cidade. “A incidência é alta”. Teresa ressalta, no entanto, que a dislexia não é uma doença e os disléxicos têm inteligência normal. Se o grau de inteligência for abaixo da média a possibilidade de essa pessoa ter o distúrbio está descartada. “O disléxico tem uma inabilidade e não deficiência.”

Entendendo o distúrbio

    Estudos de genética molecular e comportamental apontam que a dislexia tem fatores hereditários. Eugênia, da ABD, explica que é uma dificuldade oculta e invisível, só perceptível quando a criança inicia a alfabetização. “Mas nem todos os distúrbios de leitura e escrita são dislexia”, avisa.
   O disléxico apresenta dificuldades de leitura; demora no aprendizado escrito e depois que aprende faz trocas, omissão de acréscimos de letras e sílabas nas palavras; inverte letras e números; tem dificuldades em aprender uma segunda língua, de memória imediata e na memória seqüencial. “Essa dificuldade seqüencial provoca a dificuldade de seguir ordem”, conta Eugênia.
Isso significa que se a mãe de uma criança pedir para ela fazer várias coisas, ela não vai conseguir. “Vai trocar a ordem porque absorve uma informação por vez.”
    É justamente por estes sintomas que muitas crianças, pela falta de informação, são taxadas de burras, preguiçosas, desatentas e até deficientes.
   Geralmente, a criança disléxica tem dificuldades escolares, alto índice de repetência ou passa por muitas recuperações. Com a falta de informação em detectar o problema, os professores ou responsáveis acabam excluindo o aluno, provocando evasão escolar, fracassos e índices de repetência. “Culmina na fase jovem e adulta numa auto-estima rebaixada.”, diz Eugênia. “Isso tira a chance destas pessoas seguirem o ensino convencional e se tornar um profissional.”
    Para saber se a pessoa tem ou não o distúrbio, é necessário fazer uma avaliação diagnóstica multidisciplinar e de exclusão. “Vários profissionais devem participar, principalmente um psicólogo, fonoaudiólogo e um psicopedagogo clínico”, fala a assessora da ABD. “Eles vão aplicar todos os testes possíveis para ver as condições de aprendizagem.”
     Essa avaliação é multidisciplinar porque é feita por vários profissionais e de exclusão porque, à medida que os testes são realizados, as possibilidades são excluídas. “O problema pode ser neurológico, então é feito um encaminhamento para um neurologista.”

Cura

    Após o diagnóstico comprovado, é feito um trabalho preventivo que irá ajudar o aprendizado do disléxico. A jundiaiense Teresa diz que não há uma cura mas quando o tratamento é feito corretamente e o disléxico possui ferramentas para trabalhar, pode levar uma vida normal. “Ele sempre terá que usar dicionário, reler o que escreveu e fazer uma auto-correção”, esclarece Teresa.
    Por ser um problema invisível, é preciso muita paciência do educador para descobrir o distúrbio em um aluno. Segundo Maria Eugênia, dependendo do nível, (leve moderado ou severo) a dislexia prejudica o estudante. “Por isso a escola nunca será objetivo de desejo dele”, fala.

ABD
Associação orienta pais e professores

    Fundada em 1983, a Associação Brasileira de Dislexia (ABD) é uma entidade sem fins lucrativos que presta atendimento por meio do Centro de Avaliação e Encaminhamento. Surgiu por idéia de uma pai empresário que teve seu filho diagnosticado disléxico na Inglaterra.
    A entidade tem o intuito de divulgar e diagnosticar a dislexia, ajudando crianças, adolescentes e adultos com esta dificuldade, assim como orientar pais e profissionais de diversas áreas. Atualmente, é a única no Brasil reconhecida pela Secretaria de Educação Especial do MEC.
    No centro de avaliação são diagnosticados os distúrbios de aprendizagem. Ali, as pessoas saem com os resultados e encaminhamentos aos profissionais adequados. Também são feitas palestras, simpósios, cursos, workshops e pesquisas sobre o assunto.
    A ABD se mantém financeiramente com doações do fundador, anuidades dos sócios, vendas de materiais, palestras e cursos. Algumas avaliações são cobradas mas a entidade possui uma apolítica de adequação de custos para cada caso.